São 6h30 da manhã. Acordei há mais de uma hora já, mas continuo de cara amassada. Escrevo do balcão de uma delegacia de Brasília e estou totalmente enjoado do estômago. Fiquei sabendo ontem à noite que entraria de madrugada. Um tipo de ligação que eu nem discuto. Sei que, se escapar, condeno um colega a madrugar.
Já conheço de vista os agentes da DP. Na última semana foi aqui que fiz boa parte das minhas refeições, fui ao banheiro, naveguei na internet, conversei com colegas... trabalhei. Cheguei a passar uma noite inteira num ambiente desolado.
A principal e primeira delegacia da cidade fica já fora da região que atende, a Asa Sul. Suas noites, pelo que vi, são tranquilas. Frias nesta época do ano. Silenciosas. E opressoras. Não consegui dormir nada nas cadeiras para visitantes - alguns colegas não tem esse problema. Fiquei vagando pelo estacionamento, no meio de dezenas de carros apreendidos e revendo sites no computador que o jornal mantém aqui para nos dar apoio. Ao repórter e ao(s) fotógrafo(s) que não saem daqui. Há duas semanas, o jornal mantém equipes aqui 24 horas por dia.
Nossa missão é conseguir mais informações do que os demais veículos de comunicação. Mais informações sobre um crime de prioridade 1 para a polícia brasiliense, um triplo homicídio em uma das quadras mais nobres do Plano Piloto. Alguém matou um dos maiores (e mais ricos) advogados da cidade, sua esposa e a empregada do apartamento de mais de 300 metros quadrados.
O crime aconteceu numa sexta-feira e os corpos foram encontrados na segunda, por parentes. Desde de então, a "melhor e mais bem paga polícia do Brasil" faz de um tudo para solucionar o caso. Mais de 10 perícias já foram realizadas no imóvel, que recebeu diversas visitas da delegada chefe da DP. Os depoimentos levam dias inteiros, são acompanhados por uma psicóloga e chegam ao conhecimento do diretor geral da PCDF. Tudo o que acontece é registrado por dezenas de câmeras, um batalhão de repórteres.
Passando a noite, porém, só nós. As demais empresas não tem ou não acham necessário manter gente aqui o tempo todo. A minha já conseguiu muita coisa assim, por isso se esforça. Azar dos repórteres. Em uma semana mais curta graças ao feriado, eu, que tenho contrato de sete horas por dia, trabalhei mais de 40. Outros tiveram que antecipar o plantão de fim de semana. Jornadas de 12 horas ou mais não são raras.
O esforço tem sido atiçado por uma concorrência que não costumamos ter. O jornal do outro lado da rua tem publicado informações que não temos ou divergentes das nossas. E isso instiga, faz com que fiquemos focados em procurar um algo a mais. As informações são escassas já que a polícia não ajuda, mas o espaço no jornal é grande. O assunto chama a atenção do leitor ávido pelo mistério. Principalmente com a hipótese do latrocínio perdendo força diante da suspeita de crime encomendado.
O advogado morto trabalhou para o ex-presidente Fernando Collor, assim como PC Farias. Atuou e atua em diversos processos fundiários, que rendem muito dinheiro e mexem com interesses para lá de fortes. Havia - dizem - começado a receber 12 parcelas de R$ 7 milhões de uma ação movida contra a União.
Esses ingredientes, juntos, tem como resultado uma das especialidades do jornalismo: a boataria. O que é publicado em um dia pode ser desmentido no outro. Informações tidas como falsas voltam a ganhar importância e suposições sustentam matérias de uma página. Meu trabalho é ajudar a manter essa máquina funcionando. Por isso vou ali tomar um café horrível na lanchonete da DP e tentar me manter sempre alerta.
Um detalhe que considero importante: a família não tinha mordomo.
Raphael Veleda at 3:49 AM - Comments:
Monday, September 07, 2009
Hoje os tanques marcharam sobre uma das principais ruas da cidade, a Esplanada dos Ministérios. Pela manhã, aviões de combate me acordaram, manobrando. Não foi a guerra, porém, que desaquartelou nossas forças armadas. Foi o desfile militar em homenagem ao 7 de setembro, dia de nossa gloriosa independência.
Outras cidades também mereceram a honraria, não sei quantas. Vi, na TV pública, parte das paradas do Rio de Janeiro e de Brasília. Aqui, na capital, o presidente francês Nicolas Sarkozi teve que aceitar o convite para esse programa de índio. Ao lado de um Lula totalmente desconfortável com aquela ridícula faixa tamanho "P". Coitados deles. Tiveram que acompanhar o desfile do tédio do mundo em forma de pelotões e armas que parecem antiguidades. Assistiram ao que há de pior em coreografias militares e sentiram dor nos olhos tentando ver as manobras da ex-quadrilha da fumaça num céu todo branco. Nuvens mallogras de setembro.
Tomara que um dia os tanques nas ruas sejam apenas uma lembrança ruim.
Raphael Veleda at 6:57 PM - Comments:
Monday, August 31, 2009
Se eu fosse republicar os malvados aqui a cada tira genial, o blog perderia a razão de ser. Mas este mereceu.
Raphael Veleda at 7:36 AM - Comments:
Friday, August 28, 2009
Sai no jornal hoje, virei notícia. Personagem de uma nota grande num pé de página do meu caderno. Eu e três colegas na foto, dois fotógrafos e uma repórter. Estávamos lá porque o jornal, num esforço motivador, resolveu premiar todo mês um repórter e um fotógrafo que se destacaram. Faz uns cinco meses já e os critérios foram sendo adaptados durante esse tempo. Hoje, ganha quem fez a "melhor" matéria e a "melhor" foto. Quem decide isso são os chefes.
Eu ganhei graças a uma série de matérias sobre golpistas que estavam enganando a população prometendo inscrições no novo programa habitacional do Governo Federal, o Minha Casa, Minha Vida. Foi um assunto que eu sugeri e rendeu duas ou três manchetes do jornal. Na época, recebi vários tapinhas nas costas. Menos, porém, do que agora que ganhei esse prêmio.
Tem explicação. O jornal é cheio de repórteres consagrados; gente que tem moral, já fez muito pela empresa e tem tempo para produzir. Via de regra são esses que ganham o tal prêmio. Já eu sou o que pode ser chamado de repórter do baixo clero. Carregador de piano mesmo. Faço muita matéria policial; acompanho a agenda do governador, faço o obtuário... O grosso do jornal para que matérias exclusivas, boas e grandes tenham condições de saírem.
Mas tive sorte. Como já disse aqui, os telefones no jornal não param de tocar. Normalmente são leitores querendo sugerir pauta. A imensa maioria é de besteiras e isso faz com que muitos não gostem nada de atender ao telefone. Só faço isso se estiver totalmente fudido. E ganhei a pauta assim, num telefonema. A levei para a reunião de pauta; o chefe gostou e fui para a rua apurar. Rendeu bem e todo mundo gostou.
O bom do prêmio é o reconhecimento. A gratificação é de R$ 300. E não pode ser em dinheiro. Tem que escolher presentes para comprarem. Primeiro pedi um uísque, mas barraram bebida alcoólica (pode?). Então troquei por uma camisa do meu tricolor querido, livros e CDs dos Rolling Stones.
Ganhei ontem os presentes dos chefões. E ontem tinha conseguido de novo a manchete do jornal com outra pauta própria. A incrível história das empresas de ônibus coletivo do DF, que pirateiam linhas umas das outras e inventam itinerários não autorizados pelo Estado. Tudo para lucrar mais. Mais tapinhas nas costas e congratulações.
Uma maré de sorte que aumentou ligeiramente minha moral na editoria. Algo quase imperceptível, mas perigoso. São fatos que levam a um caminho trilhado por muitos jornalistas mundo afora. Aqui mesmo no jornal não é difícil encontrá-los. Gente que transforma o ofício numa viagem individualista escrota. Que começa a trabalhar pelo nome, esquecendo qualquer preocupação pela sociedade.
Um caminho que eu me recuso a seguir. Não trabalho por mim ou para mim. Trabalho para ajudar as pessoas. Aquela velha história de ser os olhos de quem normalmente não pode ver. A voz do povo. Nas duas matérias que citei, foi apenas isso que procurei. Livrar a população de golpes criminosos, da má fé de empresários, do estelionato.
Tomara que o prêmio me garanta mais espaço para continuar fazendo isso. Como disse Raulzito, eu tenho uma porção de coisas grandes para conquistar e não posso ficar ai parado.
Foto do grande adauto Cruz.
Raphael Veleda at 3:53 PM - Comments:
Thursday, August 20, 2009
Na faculdade de jornalismo, as aulas de televisão dividem paixões. Alguns amam! Querem ser Fátima Bernardes e Wilian Bonner. Outros acham tudo uma grande bobagem. Eu estava no segundo grupo. Sempre quis ser jornalista de texto. Como os caras que me inspiraram a fazer a parada.
Fiz as matérias porque tinha que fazer. Achava que tudo tinha que ter mais forma do que conteúdo. Mas fiz algumas passagens pro jornalzinho. É bem foda. Tem que decorar um texto cheio de informações que você desconhece. Manter a postura, forçar a voz e... usar terno.
Mas, dia desses, pobrezinho de mim, um repórter de cidades que vinha trilhando meu caminho no jornal impresso já há três anos tive que me entregar ao mundo multimedia. Recebi uma pauta. Junto veio a informação de que a equipe de filmagem para TV do site do jornal iria comigo. Mas só os cinegrafistas, sem repórter. Eu teria que fazer uma passagem.
Não dava para colocar terno. Não é exigido isso de mim, muito pelo contrário. No dia, estava vestindo uma camiseta dos Ramones meio marrom que eu adorei quando comprei por nem esparrar muito e dar para trabalhar. Fui com ela e foda-se. Tive que escrever um texto lá na hora, no sol. Decorar a porra toda, que dura uns 50 segundos e falar para a câmera.
Depois, na redação, enquanto escrevia minha matéria para o jornal, fiz o texto do off e lí no estúdio.
Dá para ver neste link. Pode demorar um pouco para direcionar, mas é de boa.
Raphael Veleda at 12:58 PM - Comments:
Thursday, August 13, 2009
Um quadrinho do grande Stvz, que está lincado aqui do lado no Cumulus Absurdum. Lá, ele publicou a versão em preto e branco. São duas porque ele desenhou realmente para publicar no jornal.
Tive este diálogo com ele quando vi a arte:
S.: Te mandei ai um desenho que os mlks* vão ver de publicar no jornal
R.: Eu vi cara; ficou realmente muito Bom. Mas então, tu não acha que seria mais fácil sair se não fosse um crítica ao jornal?
S.: Pois é. Era pra ser uma coisa mais filosófica**, menos direta. Mas acabou saindo assim.
R.: Só. Mas ficou massa de qualquer maneira.
* os mlks: Amigos dele que trabalham aqui na editoria de arte.
** "filosófica". Não lembro ao certo se foi essa a palavra que ele usou. Pode ter sido "reflexiva" ou algo do tipo.
Não sei se saiu.
Raphael Veleda at 11:10 AM - Comments:
Friday, August 07, 2009
... Nem foi escrita.
Marketing é uma palavra bem contemporânea, que se encaixou bem no vocabulário nacional. Todo mundo faz um pouco.
Quarta-feria foi um dia histórico para o jornal. As edições esgotaram nas bancas. Os carros foram abordados nas ruas por gente querendo um exemplar. Algo que não acontecia há tanto tempo que ninguém lembra.
Tudo por causa de uma grande reportagem? Não. O responsável foi um bom serviço. Publicamos a lista com o nome de cinco mil pessoas que vão ganhar lotes do governo nos próximos meses. A maioria, está inscrita há mais de 30 anos no órgão habitacional, esperando ser contemplado.
Independente disso, o pessoal aqui no jornal se animou com o recorde de vendas e já se pensou em fazer o famoso marketing. Eu tinha outra pauta, mas fui incumbido ainda de entrevistar donos de bancas sobre a rapidez do esgotamento do jornal.
Sai com um fotógrafo para realizar a missão. Fizemos três bons personagens e eu já estava pensando em como escrever o release, digo, matéria. Quando cheguei, porém, a ideia havia morrido. Meu chefe apenas me disse que não ia mais ter.
Não lamentei.
Raphael Veleda at 9:41 AM - Comments:
Raphael Veleda
Jornalista,
24 anos, anarquista, gaúcho, sãopaulino, ex-estudante de Letras,
cinéfilo, (aprendendo a ser) budista, punk, ambientalista, fora de moda, morador
de Brasília... E about o blog? Bem; literatura mal
feita,
opiniões ruins, jornalismo de quinta categoria e fotos amadoras. Tudo,
é claro, com um forte olhar machista e sexista. Com o tempo vou tentando
melhorar o nível. Se quiser reclamar
é aqui.
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