Foi a hora que saí do jornal ontem (hoje né?).
Fica menos assustador contando que entrei às 13h, para cobrir o fechamento do jornal. Normalmente, quando estamos em "últimas", vamos embora entre meia noite e 1h. Ontem, porém, era o último dia de votações na Câmara Legislativa antes do recesso.
Quando o chefe me pediu para "render" a repórter que estava lá a tarde toda, a Lilian, eu sabia que demoraria, mas me surpreendi mesmo assim.
Pela lei, na última sessão do primeiro semestre, os deputados precisam votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o próximo ano. Uma espécie de pré-orçamento (que é votado na última sessão do segundo semestre).
Votaram, e foi tranquilo. Haviam feito um acordo antes e mesmo a oposição votou à favor. São 24 deputados, 19 da base e cinco oposicionistas. E eles (quase) sempre votam contra. O acordo final foi curioso, e abri por ele a matéria que escrevi para o jornal de amanhã.
Pediram uma longa e analítica reportagem sobre esse último dia. Espero que gostem porque gosto de política - apesar de não gostar nada do que se passa na Câmara Legislativa.
O que atrasou tudo, incrivelmente, foi um projeto que já havia sido aprovado semana passada, nos dois turnos. Mas teve de voltar ao plenário porque foi publicado com erros. Acredita? Um projeto do qual eu já falei aqui, que é o do passe livre estudantil.
Os malditos deputados haviam fechado acordo também em torno desse projeto, para aprová-lo de modo tranquilo. Na hora H, porém, alguns começaram a arrumar problema, a querer colocar novas emendas e virou uma confusão. Num dado momento ficou certo que o projeto teria que esperar o segundo semestre ou ser votado numa sessão extraordinária hoje. Uma merda porque já era madrugada e todos queriam que acabasse logo. Quando digo todos, falo de mim e dos assessores de imprensa dos deputados e da Casa. Porque os outros jornais já haviam desistido.
Não fiquei puto porque considero o assunto importante e pude escrever hoje sacadas de clima na sessão que ninguém mais tem. Confiram amanhã em uma das novidades do jornal: política no DF, no fim do caderno de cidades.
Enfim, depois de uma hora e meia de reunião "no cafezinho", nossos excelentíssimos representantes aprovaram o passe livre e votaram a toque de caixa, aos bocejos, mais uma pá de projetos. Hoje consegui a lista dos 51 aprovados ontem. A lista será publicada na internet e terá um ícone na página avisando isso.
Quando voltei para casa a cidade estava fria, vazia, calma e opressora. Sozinho em seis faixas de rolamento. Gostei.
Raphael Veleda at 2:17 PM - Comments:
Friday, June 26, 2009
O jornal está com um novo projeto gráfico; mais dinâmico, com menos texto e mais informação. O que acontece por meio de infografias, artes, fotos, hipertextos e muitas outras opções que estamos aprendendo a usar. O objetivo da diretoria, que apostou tudo em uma mudança radical, é tornar o produto mais atraente, aproximá-lo cada vez mais das notícias.
Uma das novidades, algo pequeno diante do resto, é o obtuário. Todo fim de tarde, os cemitérios da cidade enviam um fax ao jornal com o nome de todos os sepultados. Ao invés de apenas repetir os nomes, o novo projeto prevê que se conte uma pequena história de dois dos mortos.
Um texto pequeno, coisa de cinco linhas. Falando onde nasceu, o que fez, quantos filhos teve. Texto publicado ao lado de uma foto 3x4; algo simples... para o leitor. Desde domingo passado, os repórteres estão sendo pautados para ir aos cemitérios ou ao IML, interromper velórios, enterros. Pedir aos parentes naquele momento de dor que contem a história e arrumem a foto.
Antes de ontem eu fui o escolhido. Vi o pesar no olhar da minha chefe quando fui comunicado. Na coragem, sai com um fotógrafo rumo ao cemitério de Brasília. Interrompi três enterros e recebi ríspidas respostas negativas. Era hora do almoço, eu estava com fome, mas pedi à equipe que fossemos a Taguatinga para tentar terminar logo essa pauta. Rodamos 30km; interrompemos mais três enterros e... Nada.
Medo.
É uma pauta horrível, da qual todo mundo tem reclamado, mas todo mundo tem feito. Como eu não conseguiria? Almocei, apurei a minha outra pauta de dia, e voltei ao cemitério. Só pra ganhar mais alguns nãos.
Os chefes foram compreensivos. Não sei o que acharam, mas não brigaram comigo.
Ontem não saíram fotos no obtuário. Hoje saiu uma só.
Se as pessoas não começarem a mandar espontaneamente histórias e fotos - como pede o cabeçalho da coluna - acho que a ideia está fadada ao fracasso.
Espero e acredito que esse não será, porém, o destino das demais mudanças.
Por fim, o blog registra o pesar pela morte do maior vendedor de discos de todos os tempos. Valeu Michael Jackson.
Raphael Veleda at 4:48 AM - Comments:
Wednesday, June 17, 2009
Tem um pessoal na Asa Sul que personaliza todo o ranço do conservadorismo. É não é porque é gente com a idade de Brasília ou mais. São pessoas que já nascem velhas e dispostas a fazer o possível para frear o desenvolvimento da humanidade.
Brasília tem uma igreja na 307/308 Sul dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Foi projetada por Oscar Niemeyer e é linda, toda em estilo modernista, com jardins de Burle Marx do lado de fora e azulejos de Athos Bulcão na fachada. Já contou ainda com o trabalho de outro grande artista, o italiano Alfredo Volpi, que pintou três afrescos lá na década de 60. Era uma pintura modernista, que combinava totalmente com a arquitetura da obra. Mas os fiéis - a maioria jovens a essa altura, mas velhos de espírito - jamais aceitaram as imagens de Maria e Jesus Cristo sem os contornos do rosto. Fizeram o que? Destruíram as pinturas e jogaram mãos de tinta por cima. Com o consentimento do pároco - dizem.
Cinquenta anos depois, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional começa a reformar a igrejinha - que já tinha incorporado goteiras e rachaduras à estrutura, e convoca um grande artista da cidade (na verdade piauiense, mas morador de Brazlândia desde jovem) para pintar novos painéis. Francisco Galeno, que teve pinturas dadas de presentes a vários líderes mundiais por FHC, é discípulo de Volpi e se debruçou para fazer um trabalho original, mas inspirado no mestre.
Se reuniu com os fiéis em várias ocasiões e fechou a ideia de pinturas coloridas, vibrantes e... abstratas. Eis que os arautos do obscurantismo começam a lutar contra o que chamam de palhaçada, ofensa, coisa feia, mal pintada, profana e por aí vai. Não gostaram dos brinquedos representando as crianças que teriam visto a santa em Fátima. Não gostaram de ver Nossa Senhora de novo sem rosto e odiaram vê-la com uma pipa nas mãos.
Apelaram até para o Ministério Público Federal com um abaixo-assinado com 68 nomes. O MPF pediu ao Iphan que paralisasse a pintura enquanto avaliava a questão e foi atendido. Fiz matéria sobre isso. Persegui a imparcialidade, mas foi difícil.
E eis que descubro que o representante do Iphan do DF decidira ignorar sugestão do MPF e mandar Galeno terminar seu trabalho. A matéria foi ótima, o assunto já era forte e continua aparecendo no jornal. Mas não me deram sequer uma chamadinha na capa, o que me entristeceu. A questão já tinha ganhado mais destaque com menos novidades.
O importante, porém, é que o jornal segue mostrando a luta de Galeno para continuar pintando. Quando foi retomar o trabalho, na segunda, achou o painel coberto por um pano. Hoje, quando chegou, havia marcas de dedos borrando parte do desenho. Hoje não sei - ainda - qual será a dificuldade. Mas o jornal, para minha felicidade, segue defendendo o artista e tentando desencorajar seus inimigos.
Vida longa aos painéis de Galeno.
Raphael Veleda at 7:03 PM - Comments:
Saturday, June 13, 2009
A reportagem de televisão não pode prescindir de uma coisa: a imagem.
O repórter falar no vídeo que algo aconteceu não é forte como mostrar a ação. E a concorrência entre os telejornais tem se acirrado bastante - aqui em Brasília mesmo a coisa tá pegando.
O resultado da disputa é uma busca ferrenha pela verdade na matéria, nem que para isso seja preciso mentir um pouquinho.
Aprendi na faculdade que o repórter reporta. Tenta juntar o maior número possível de informações sobre o fato e conta o que aconteceu. O repórter, aprendi, não deve interferir no fato reportado. E esse assunto rendeu muitas horas/aula.
E, no trabalho, continua me sendo proibido montar histórias para e encaixarem melhor, mas na TV isso tem acontecido.
Tenho visto matérias que mais parecem novelas, com trilha sonora e tudo. O locutor diz: "Todo dia fulano faz o mesmo trajeto de casa até a parada de ônibus". E a imagem mostra o fulano andando, de vários ângulos, com uma boa luz. E assim segue a matéria - toda romantizada.
Fico impressionado quando vejo isso, mas já é normal pelo jeito.
Mas ontem o Diego me contou algo que não pode ser normal. Ele foi cobrir o primeiro dia de vestibular da Universidade de Brasília. Tarefa tranquila: entrevistar candidatos, apurar número de faltosos, perguntar o tema da redação e... Entrevistar aquele mané que chega atrasado e dá de cara na grade.
Ele estava lá na UnB, principal local de provas, já com o portão fechado. Não estava sozinho, mas acompanhado da equipe de uma grande emissora de TV.
Eis que lá vem o desafortunado candidato atrasado. Da rua ele já vê o portão fechado e, resignado, se prepara para voltar em cima dos passos. Mas ouve o chamado:
"Ow, peraí, não desiste não! Tenta entrar e quem sabe você consegue".
Ele olha para trás e vê repórter e cinegrafista acenando; chamando. Eles sabem que a chance de ele entrar é zero. Mas querem a imagem.
Desconfiado, o rapaz chega perto do portão e tenta chamar a atenção do segurança. "Bate na grade", dizem as pessoas que deveriam estar ali para reportar. "Bate mais forte".
Após ter seu problema explorado pela equipe, o rapaz vai embora. Talvez tenha ligado a TV à noite para se ver atuando.
Raphael Veleda at 12:52 PM - Comments:
Friday, June 12, 2009
Italiana que perdeu voo 447 morre em acidente de carro na Áustria
A italiana Johanna Ganthaler, que "sobreviveu" ao acidente com o Airbus da Air France por ter perdido o voo 447, morreu em um acidente de carro na Áustria. Segundo a agência Ansa, o marido dela, Kurt Ganthaler, que também viajaria do Rio a Paris na aeronave, ficou seriamente ferido.
O Kurt que se cuide.
Raphael Veleda at 3:50 PM - Comments:
Friday, May 22, 2009
O blog devia trazer coisa mais nova que o jornal impresso, mas vou voltar a um assunto de ontem (antes de ontem, porque já passa de meia noite de sexta). Um assunto do qual já tratei aqui; a gratuidade do transporte para estudantes.
O movimento passe livre existe em diversas cidades mas é visto como utopia pela maioria das pessoas. Aqui em Brasília eu já presenciei manifestações dos estudantes lutando pela causa. Nunca são muitos, mas lutam pelo benefício para todos. Quase sempre foram enquadrados pela polícia - sobretudo quando a movimentação tinha pitadas de desobediência civil - como pular as catracas ou impedir os ônibus de saírem da rodoviária.
Deputados da oposição ao governo direitista local já apresentaram proporam o passe livre na Câmara Legislativa; mas foram ignorados solenemente pelo governo.
Eis que esta semana o vice-governador Paulo Octávio, que simboliza bem o caráter corporativo do governo, apresenta um projeto de lei que implementa o passe livre para todos os estudantes de instituições públicas e particulares em todos os níveis. Ônibus e metrô de graça na ida e na volta da escola.
A (boa) notícia saiu na edição de ontem do jornal, em (boa) matéria do Diego Amorim. O governo diz que vai gastar R$ 3 milhões por mês subsidiando a passagem de 1,3 milhão de estudantes. E diz ainda que isso ajuda a manter o preço das passagens no patamar atual "já que as empresas deixam de completar a passagem dos estudantes - eles pagam um terço do valor total".
Nada menos do que surpreendente. Meus parabéns ao GDF desta vez.
Mas não posso deixar de citar algumas frases da reportagem. Ditas pelo presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de Brasília (UnB), Raul Cardoso: "Tenho o pé atrás. O governo que apresenta essa proposta é o mesmo que lutou contra a mesma ideia".
O projeto deve ser aprovado rapidamente no legislativo. Vamos ver.
Raphael Veleda at 8:36 PM - Comments:
Wednesday, May 20, 2009
Foi o que disse a Márcia ontem, 10h30 da manhã, quando viu o José Macelino Barros, um operário da construção civil de 36 anos, casado e pai de dois filhos pequenos correndo por uma calçada do Setor Hoteleiro Norte, no centro da cidade, jorrando sangue pelo que sobrou de seu braço.
Márcia é comerciante e estava lá com uma amiga procurando uma agência de viagens. Em choque ela viu quando um carro da PM que passava fazendo a ronda parou. O sargento Rubens Santos, comandante da viatura, nem pensou em esperar os bombeiros. Colocou o cara para dentro e levou para o hospital.
Cheguei 20 minutos depois e encontrei a Márcia, que me contou a cena de filme de terror que era confirmada pelo rastro de sangue pelo chão - mais de 100 metros de rastro.
José Macelino trabalhava desde o início do ano em uma obra na área externa do hotel Manhattan Plaza. Operava um pequeno guindaste que serve para levar o cimento lá pra cima. Instrumento de trabalho que se tornou seu algoz.
Ele sentava de frente para a máquina e operava um alavanca com a mão direita para subir e descer o balde. Ontem o vento fez o balde balançar e ele se distraiu para arrumar. A máquina puxou então tecido de sua luva esquerda. Que puxou a mão, que puxou o braço e estava puxando ele todo. Ele, que num misto de reflexo e coragem, puxou o corpo, deixando o braço. E saiu correndo e gritando por ajuda.
Quando cheguei uma equipe do hospital estava tirando o braço da máquina para tentar colocar de volta. Algo horrível de se ver.
Escrevi a matéria; mas só saiu uma notinha. Por isso aqui está o material.
RAPHAEL VELEDA
A viatura do sargento Rubens Santos, da Polícia Militar, fazia a ronda no Setor Hoteleiro Norte por volta de 10h30 quando ele viu a cena: “Um homem vinha correndo pela calçada e gritando socorro. Ele sangrava muito e tinha acabado de perder o braço esquerdo”, relata. O homem era José Macelino Barros, 36 anos, que acabara de sofrer um grave acidente de trabalho em um obra no hotel Manhattan Plaza, onde trabalhava desde o início do ano operando um guindaste.
Diante da gravidade da situação, o policial resolveu não esperar pelo socorro do Corpo de Bombeiros. “Colocamos ele dentro da viatura e corremos para o Hospital de Base. O importante era salvar a vida dele”, completa Santos, que é lotado na 7ª Companhia de Polícia Militar Independente, da Rodoviária do Plano Piloto. Um amigo e colega de trabalho, Manoel Pereira Jacobina, 26, acompanhou José até o hospital. “Eu não vi o acidente; estava indo para o local da obra quando o vi correndo. Só pude abraçar ele”, conta ele, que é pedreiro. “Dentro da viatura eu tirei minha camiseta e enrolei no braço dele para tentar segurar o sangramento. Ele estava desesperado, chorava, dizia que não sabia como iria sustentar os dois filhos pequenos agora. Estava sentindo muita dor”, relata Jacobina, que não teve muito o que fazer. “Eu disse que Deus daria um jeito”, conta.
José estava na Pimar - Pirâmide Engenharia e Comércio, empresa responsável pela substituição do revestimento externo das varandas e pilares da faixada do hotel, desde o início do ano. Antes trabalhava como motorista. “Ele está desorientado”, afirma o amigo, que o conhece há quatro anos. “Ele mora no Itapoã e eu no Paranoá. Nos víamos sempre. Ele gosta muito de jogar bola”, afirma.
O acidente aconteceu quando José Macelino estava subindo um balde de massa para o alto do prédio através do guindaste. O aparelho aciona um cabo de aço que eleva o material. Uma corda comum também é amarrada ao balde para impedir que ele vire. “O José me disse que o vento fez a corda enrolar no cabo de aço. Ele parou para resolver isso e, quando viu, a máquina puxou a luva dele, levando o braço também”, relata o amigo Manoel. José foi puxado para dentro do equipamento e jogou o corpo para trás — deixando o braço. Menos de meia hora depois, uma equipe do Hospital de Base foi ao local pegar o membro para tentar um reimplante. Infelizmente, porém, isso não foi possível porque a máquina destruiu os ossos do braço — que foi decepado logo abaixo do cotovelo.
O operário passou por uma delicada cirurgia que durou a tarde inteira. Ele passa bem mas está internado e não tem previsão de alta. O tratamento deve incluir a colocação de uma prótese no braço de José, quando ele se recuperar dos ferimentos.
O Correio entrou em contato com a Pimar para comentar o ocorrido, mas não houve resposta. As causas do acidente estão sendo apuradas pela 5ª Delegacia de Polícia (Setor Bancário Norte). Leandro Folly, delegado plantonista da unidade, esteve no local. Segundo ele, o resultado da perícia feita ontem será muito importante no inquérito. “Pode ter sido falta de segurança ou falha humana. Pode ter acontecido ainda quando ele tentava reparar a máquina. Até agora tudo é especulação”, conta. Não ficou claro se José operava a máquina acompanhado por outro operário — como deve ser — ou sozinho. Em caso de negligência, a empresa responsável pela obra e pela segurança dos funcionários pode ser responsabilizada pelo acidente.
Raphael Veleda at 7:13 PM - Comments:
Raphael Veleda
Jornalista,
23 anos, anarquista, gaúcho, sãopaulino, ex-estudante de Letras,
cinéfilo, (aprendendo a ser) budista, punk, ambientalista, fora de moda, morador
de Brasília... E about o blog? Bem; literatura mal
feita,
opiniões ruins, jornalismo de quinta categoria e fotos amadoras. Tudo,
é claro, com um forte olhar machista e sexista. Com o tempo vou tentando
melhorar o nível. Se quiser reclamar
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