Sunday, May 23, 2010

Jazz


Foram os desenhos do Angeli que me apresentaram ao jazz. Mesmo sem conhecer nada, eu praticamente conseguia ouvir as figuras desenhadas pelo cartunista. E teve Leila, do último disco da Legião com o verso "Fumar unzinho e ouvir Coltrane / não faço mais isso mas entendo muito bem".

E eu ouvi um monte de Coltrane há um tempo. E ouvi-lo torna especial qualquer momento. Dá vontade de parar e fechar os olhos. De deixar o tempo passar. De pensar em coisas boas. Ou pensar melhor naquilo que não é tão bom assim. E o velho Coltrane me levou pra conhecer sua turma. Miles Davis, Charles Mingus, Dizzy Gillespie...

Até que, em 2007, veio a coleção Clássicos do Jazz encartada todo domingo na Folha de S. Paulo. Eu ia na banca assim que acordava, porque os CDs não costumavam durar em Brasília. E aquilo foi minha verdadeira introdução ao jazz. Foram 20 discos com um livreto biografia e a música das lendas do ritmo. Meus preferidos da coleção são os do Charlie Parker, Herbie Hancock, Art Blankey, Chet Baker, Thelonius Monk, Miles Davis, Duke Ellington, Chick Corea, Dizzy Gillespie, John Coltrane e Charles Mingus... ou seja, quase todos. Gosto muito também dos outros.

Ouvi esses discos pra caralho. Quando estava triste ou feliz; bêbado ou sóbrio; preocupado ou tranquilo. Eles sempre me fizeram bem. Mas disco é aquilo. É legal e talz, mas não se compara à emoção de um show ao vivo. É como o Walter Benjamin disse. A obra de arte perde sua aura ao ser reproduzida. E eu só podia imaginar como seriam esses caras improvisando em cima de um palco.

Aqui em Nova York eu passei a me sentir mais próximo do jazz. Fui ao clube da gravadora Blue Note, onde muitos dos maiores já se apresentaram, e pude sentir um pouco da magia. Por isso, é difícil descrever o que eu senti quando a casa anunciou uma temporada de duas semanas com o Chick Corea. A oportunidade de ver ao vivo um dos artistas que sempre me pareceram inalcançáveis.

Agora que ele estava a 20 minutos de trem, outro obstáculo aparecia, os 60 dólares do ingresso. Na verdade, pouco para ver um astro como ele num lugar em que cabem umas 300 pessoas, mas demais para quem já vive praticamente sem grana numa cidade cara como esta.

Mas a vida é feita de sacrifícios e eu nunca iria me perdoar por perder uma oportunidade como essa. Com o incentivo da Grasi, fizemos a reserva de uma mesa na noite de do último dia 3, uma quinta-feira.

O show estava marcado para dez e meia e chegamos uma hora antes, mas já tinha gente na fila pra entrar. Acho que pouco mais de 20 pessoas. E foi a conta exata para nos colocar em uma mesa perfeita. A uns dez metros do piano, com visão perfeita do palco. Eu tinha certeza que seria espetacular. E foi.

Ele passou do nosso lado quando foi subir ao palco com o baterista Paul Motian e o baixista Eddie Gomez, com seu bigodinho saído direto de um filme francês dos anos 40. Naquela noite, o trio contou com a participação especial do flautista Hubert Laws.

Quando os dedos do pianista começaram a dançar pelas teclas ali, bem na minha frente, foi como se tudo tivesse ficado suspenso. Eu estava eufórico, mas, ao mesmo tempo, muito tranquilo. Em vários momentos, era como se eu fosse levado para outro lugar. Eu fechava os olhos e viu momentos felizes de toda a minha vida. O futebol moleque em Formoso; as conversas de bar com meu pai nos dezembros da vida; meus amigos todos reunidos nas madrugadas na casa do Gabriel; a sombra das árvores no Parque da Cidade... Juntando a música, a companhia, a porção de fried calamari, o clima do lugar a a cerveja com mais de 10% de teor alcoólico inspirada numa outra lenda do jazz, foi algo mágico. Um dos meus grandes momentos aqui na cidade.

O Chick Corea fez jus à fama e os outros músicos também arrebentaram. O flautista roubou a cena em vários momentos e o baixista, tocando sozinho já no final, impressionou todo mundo. Ele tinha tocado de maneira contida o tempo todo, com os olhos fechados. Mas, na hora do solo, parece que foi possuído.

A conta foi cara, mas eu sempre vou saber que valeu cada centavo.

Dias depois, num anúncio de jornal, descubro que, entre as atrações de um festival de jazz que vai acontecer nas próximas semanas, está ninguém menos que Herbie Hancock. É só no dia 24 de junho. Mas o ingresso já está comprado.

 

Raphael Veleda at 5:47 PM - Comments:



Raphael Veleda
25 anos, jornalista, anarquista, punk rocker, gaúcho, sãopaulino, ex-estudante de Letras, cinéfilo, ambientalista, fora de moda, morador de Belo Horizonte (esta parte da cidade tem mudado muito)... E about o blog? Bem; literatura mal feita,
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